Triste dia de eleições, quando se vê o país radicalizado, extremado, consumado em suas próprias mazelas políticas. Nesse domingo de 7 de outubro de 2018 verificamos que o povo brasileiro entregou a soberania política do Brasil sem que saiba seguramente aonde o país irá. Não há festa da democracia vez que o exercício democrático supera o singelo e importante ato de votar. Não cabe o proselitismo sobre a democracia quando ela está em risco. A desigualdade social imoral, a educação deficiente, inclusive do ponto de vista político, a revolta contra o nepotismo, os privilégios e a corrupção fizeram com que o eleitor passasse a acreditar em líderes populistas ou messiânicos. Eis o principal monumento erigido nessa data.

A possibilidade que pode se tornar concreta é que o escrutínio de 2018 seja apenas a inauguração de um período perigoso e daninho contra a democracia. Nem Bolsonaro e nem Haddad (e o PT de Lula) são personalidades que assumiram claramente visões solidificadas em relação às instituições democráticas. No caso do capitão Jair Messias Bolsonaro isso é ainda mais cristalino: não foram poucos os apupos de suas claques, de seu candidato à vice-presidência e do próprio cabeça de chapa em favor do regime militar, do autogolpe, do solapamento das instituições por “debaixo de uma espada”.

Amarga será a constatação de que os candidatos podem escapar do controle dos pesos e contrapesos democráticos. Há ditaduras ou regimes autoritários que são concebidos “ideologicamente” como no caso dos revolucionários russos de 1917. Há outras que florescem, a despeito de previsões ou pré-condições estruturadas. Decorrem, essas últimas, da efetiva desorganização política de determinada sociedade relativamente aos seus interesses. A ignorância das elites e do próprio povo, do ponto de vista político e funcional, adubam esse processo e o retroalimentam, até que se forme novo paradigma democrático. Isso pode demorar poucos, mas podem ser muitos anos.

No caso do Partido dos Trabalhadores a aposta que engendraram nessas eleições é que o povo não tem memória ou, ainda, que sua lembrança se reserva aos feitos favoráveis do governo do ex-presidente Lula. O encarcerado de Curitiba foi capaz de ser o principal personagem dessa alegoria eleitoral, mas consolida, em verdade, certos arroubos caudilhescos que lhe capacitam a impor determinado candidato como quiser e a empunhar ao próprio partido sua duvidosa vontade pessoal – ou não é?

Lula abandonou a sua vestimenta de líder democrático: “entrou na cadeia para sair da própria história”. É figura pálida de uma democracia que avermelha o rosto na direção do autoritarismo. Faltou liderança ao ex-sindicalista para revelar a corrupção que enlameou o PT, seus comparsas e o país. Ainda assistimos todos os dias os efeitos do que foi feito sob Lula e Dilma: a corrupção não deixou apenas rastros, fez expostas as vísceras da política brasileira – aqui talvez não fosse propriamente novidade. Haddad, queira ou não, se tornou trágico herdeiro dessa subversão política. Ademais, de seu programa, exala o atraso intelectual e político para entender as novas variáveis do funcionamento da economia e da sociedade. Sob a imensa miséria material do Brasil, o PT deitou em berço torto o mais profundo atraso mental na concepção de projetos de vanguarda para o Brasil. Não houve o aggiornnamento capaz de estabilizar e fazer crescer a economia de forma sustentável e a permitir a esperada justiça distributiva. Se assume o poder, Fernando Haddad, não terá alternativa: ou viola o seu programa político ou não governa pacificamente. O país pode ir ao caos, se quiser algo mais direto. Não se pode tergiversar sobre essa realidade, não se trata de conspirar contra a candidatura, muito menos.

Já o caso de Jair Messias Bolsonaro é mais complexo ainda, razão pela qual gasto mais linhas escritas para tentar alinhavar mínimo raciocínio sobre o candidato. Qualquer análise que se faça sobre o capitão é naturalmente incerta. Um exame de sua passagem (29 anos) pela Câmara dos Deputados revela que seus projetos de lei têm ligação com temas como segurança pessoal (valoriza o porte de armas), o corporativismo das forças armadas (vários projetos em prol dos fardados) e quase nada sobre economia, política fiscal ou temas sociais abrangentes, de peso para um candidato à presidência da República. O seu guru econômico Paulo Roberto Nunes Guedes, ex-banqueiro e atual administrador de recursos, com formação na FGV-RJ e na Universidade de Chicago (EUA), declarou para a revista Piauí (edição 144 – 09/2018) que Bolsonaro é um “sujeito completamente tosco, bruto”, mas “capaz de ter o voto que Lula teve”. Interessante que a despeito dessas definições claras, o economista julga ser possível “amansá-lo”. De fato, ele já seria, segundo Guedes, “um outro animal”.

De outro lado, as aparições públicas de Bolsonaro, em momentos polêmicos e de votação na Câmara dos Deputados, sempre deixaram no ar o espírito de guerreiro que luta contra feministas e homossexuais e que acredita que “bandido bom é bandido morto”.

Bolsonaro, em vista mais de sua atuação ou performance, é mais uma “figura política” do que um “personagem” sobre o qual se pode tecer maiores considerações políticas. Em matéria publicada na prestigiada revista inglesa The Economist toda a investigação daquela semanal levou os jornalistas à conclusão de que ele “é uma nova ameaça à América Latina”, conforme consta da capa.

O fato de o candidato ter sido esfaqueado por um tresloucado em Juiz de Fora tornou a sua figura ainda mais desconhecida. Forjou-se, com efeito, um personagem realizado a partir do imaginário de seus eleitores e adeptos: alguém capaz de fazer, no presente, a apocatástase histórica, ou seja, a restauração de uma “ordem perdida” (e que, de fato, jamais possa ter existido). Obviamente, não é possível reunir todos os elementos que forjariam a nova (velha) ordem política e social, mas certamente podemos facilmente listar dentre os principais a “limpeza da política”, a redução da enorme criminalidade, a menor participação das minorias (étnicas, de comportamento sexual ou de gênero), no processo político e a esperança de maior igualdade de renda. São ideias relevantes, mas, como se pode verificar, genéricas, enquanto fruto do imaginário coletivo.

Outro aspecto interessante relacionado ao candidato do PSL é que o “mercado” aderiu a ele, calcado em dois pilares de racionalidade: (i) que a ignorância sobre economia e finanças do candidato favorecerá os empresários e investidores, pois foram assuntos dessas áreas os “terceirizados” para o ultraliberal Paulo Guedes e que (ii) Bolsonaro, feito presidente, será controlado pelas forças sociais que o rodeiam e pelo Congresso Nacional. O interessante desse tipo de raciocínio é que são parcos, senão inexistentes os sinais e evidências que possam corroborar tais convicções. Se se sabe que Haddad é manipulado pelo PT e, sobretudo, por Lula, em relação a Bolsonaro a ignorância é maior que as certezas. Vale a lenda.

De todo o modo, a experiência demonstra que candidatos populistas (como é o caso de Bolsonaro) normalmente não são tão controláveis como ex ante imaginam os seus partidários ou aderentes. (Recomendo, por exemplo, a leitura do capítulo 4 do livro “Como as democracias morrem” de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt).

Exportando para as previsões econômicas e financeiras o que se verifica ao final do primeiro turno das eleições de 2018, creio que apenas é possível se concentrar no curto prazo. Não é difícil imaginar que, na ausência de um programa do PT mais centrista, Haddad em alta nas pesquisas eleitorais significa que o cenário deve se deteriorar ainda mais, com queda das ações, alta de juros e dólar. Simples assim.

Já no caso de Jair Bolsonaro, é possível que presenciemos um rally acentuado e, até mesmo, um pouco mais duradouro. Afinal de contas, o cenário externo está extremamente favorável –apenas o Brasil e alguns emergentes patinam em sua própria lama. É o candidato do mercado.

Finalmente, no médio e longo prazo, registro que estamos em momento de inflexão histórica no sentido de perigosa Comédia Humana da Loucura no uso mais elementar da expressão de Elias Canetti. Infelizmente, a radicalização que se registra leva o cidadão para o canto do ringue onde se gladiam poucas ideias e muita violência verbal. A sociedade está acuada e o avanço da retaguarda da política parece inevitável. Quiçá a violência saia das palavras para os punhos.

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Autor: Francisco Petros.

Fonte: https://www.migalhas.com.br/